Durante o século XIX e as primeiras décadas do século XX, a economia de diversas regiões do Brasil foi profundamente marcada pela exploração da borracha.
Embora a história mais conhecida esteja ligada à Amazônia e à seringueira (Hevea brasiliensis), o Nordeste também participou desse processo através da extração da borracha da maniçoba, especialmente no Maciço de Baturité, onde agricultores e trabalhadores rurais exploraram o látex da planta Manihot glaziovii, conhecida como maniçoba-da-serra.
A Serra de Baturité, com seu clima mais úmido e suas áreas de transição entre a mata serrana e a caatinga, oferecia condições ideais para o crescimento dessa planta lactífera.
Ao longo do século XIX, a produção de borracha de maniçoba tornou-se uma atividade complementar, de importante manejo envolvendo pequenos agricultores, comerciantes e redes de transporte que conectava a serra ao porto de Fortaleza.
A MANIÇOBA E A EXTRAÇÃO DA GOMA ELÁSTICA
A planta responsável pela produção da borracha nordestina era a Manihot glaziovii, espécie aparentada com a mandioca. Adaptava-se bem às condições climáticas semiáridas e de transição, sendo resistente à seca e capaz de crescer em solos relativamente pobres.
A maniçoba produz um látex branco conhecido popularmente como “leite da maniçoba”, que escorre quando a casca da árvore é cortada. Esse látex, ao coagular, forma a chamada goma elástica, matéria-prima utilizada na fabricação de diversos produtos industriais.
No Ceará, a exploração dessa planta começou ainda no século XIX. Registros indicam que a exportação de borracha de maniçoba iniciou-se por volta do ano de 1845, quando cerca de 5.160 kg foram enviados ao mercado externo.
A coleta do látex era relativamente simples, embora exigisse trabalho contínuo, consistia na realização de pequenos cortes na casca da planta, que durante alguns dias, o látex escorria lentamente e formava pequenas gotas que endureciam ao entrar em contato com o ar. Essas “lágrimas” de borracha eram posteriormente recolhidas e reunidas em blocos.
Diferente do sistema amazônico de grandes seringais, na Serra de Baturité não existia uma monocultura organizada.
A maniçoba era frequentemente encontrada, nas bordas dos roçados, misturada com as plantações de milho, feijão e mandioca, adiante também junto aos cafezais. Isso fazia da borracha uma atividade complementar à agricultura familiar, e não uma economia de grande escala.
COMÉRCIO E TRANSPORTE DA BORRACHA SERRANA
Apesar de não atingir a dimensão da produção amazônica, a borracha da maniçoba chegou a integrar redes comerciais mais amplas, pois os produtos agrícolas da Serra de Baturité eram escoados principalmente através da Estrada de Ferro de Baturité, inaugurada no final do século XIX.
Os jornais da época registram o intenso movimento de mercadorias transportadas da Serra para Fortaleza, quando a “goma elástica” seguia em companhia da produção de algodão, café, couros e outros produtos agrícolas locais.
Entre esses produtores da borracha de economia familiar serrana, quando os carregamentos seguiam da Serra para a Capital, sendo negociados e enviados para o exterior. Também em produção serrana os grandes sindicatos dos produtores europeus de látex, eram os franceses e ingleses que arrendavam propriedades na Serra de Baturité somente para este fim e já destinado a um embarque específico.
Esse comércio maior, no início do século XX, começou a envolver personagens locais, qual tiveram um exemplo que foi o comerciante Joaquim Alves Nogueira, que se destacou como empreendedor e no início do século XX, ele teria sido um dos primeiros nativos a organizar a exportação da borracha produzida na Serra, negociando diretamente com o mercado europeu.
Esse tipo de iniciativa mostra que, embora modesta, a produção de borracha no Ceará, ela estava integrada a circuitos econômicos europeus, que envolviam desde os sindicatos franceses e ingleses, e a exportadora francesa: Casa Boris Feres, até comerciantes tipicamente locais.
O AUGE E AS DIFICULDADES DA PRODUÇÃO
A exploração da maniçoba no Ceará viveu períodos de crescimento e declínio. Em meados do século XIX ocorreu um primeiro “boom” de produção, entre os anos de 1854 e 1856, quando a procura internacional pela borracha aumentou consideravelmente. Nesse período, a corrida pela compra levou muitas pessoas locais a explorar as plantas de forma intensa.
Ocorre que segundo relatos da época, uma correria na produção e coleta e a falta de técnicas adequadas resultaram num látex de baixa qualidade, face a frequentemente misturada com impurezas. Isso acabou prejudicando a reputação do produto nos mercados estrangeiros. Além disso, muitos dos exploradores cortavam as árvores de forma agressiva, causando danos permanentes às plantas e reduzindo sua capacidade de produzir látex. Mesmo assim, o comércio continuou existindo, com momentos de recuperação ao longo do final do século XIX e início do século XX.
A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL E O ÚLTIMO IMPULSO
Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a borracha voltou a ganhar importância estratégica.
O avanço japonês no Sudeste Asiático — na época era a principal região produtora de borracha do mundo, fez com que os Estados Unidos e seus aliados passassem a procurar novas fontes de abastecimento, face os empecilhos ali encontrados.
Nesse contexto, a produção de borracha no nordeste brasileiro volta a ser estimulada. Pesquisadores estrangeiros visitaram diversas regiões do Ceará para avaliar o potencial da maniçoba. Em muitas áreas, como a Serra de Baturité, essa exploração poderia atingir níveis muito intensos e econômicos.
O DECLÍNIO DO CICLO DA BORRACHA DA MANIÇOBA
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a produção de borracha da maniçoba entrou rapidamente em declínio e isso ocorreu por vários fatores: primeiro pela retomada da produção asiática de seringueira da espécie Hevea, que além de proporcionar um maior aproveitamento econômico, também tem uma maior qualidade do látex, por fim, pelo surgimento da borracha sintética derivada do petróleo, que diminuiu a procura do látex.
Essas mudanças tornaram a maniçoba economicamente inviável. Na década de 1950, a produção praticamente desapareceu no Ceará. Restaram apenas lembranças dessa atividade, preservadas na memória das comunidades rurais e em alguns registros históricos.
MEMÓRIA HISTÓRICA DA BORRACHA NA SERRA DE BATURITÉ
Embora o ciclo da borracha da maniçoba não tenha sido tão grandioso quanto o da Amazônia, na Serra de Baturité, essa atividade integrou-se ao cotidiano de agricultores e trabalhadores rurais, contribuindo para complementar a renda familiar e movimentar o comércio regional.
Hoje, a maniçoba permanece apenas como parte da memória histórica da região.